História do Setor Solar: Da Descoberta à Revolução Energética
Panorama histórico da energia solar fotovoltaica, dos experimentos científicos do século XIX à transformação da matriz elétrica mundial.
As Origens do Efeito Fotovoltaico
A história da energia solar fotovoltaica começa em 1839, quando o físico francês Alexandre Edmond Becquerel, então com apenas 19 anos, observou pela primeira vez o efeito fotovoltaico durante experimentos com células eletroquímicas. Becquerel notou que a exposição à luz aumentava a corrente elétrica gerada por eletrodos de platina imersos em solução ácida, estabelecendo o princípio fundamental que décadas depois seria aplicado em células solares de estado sólido.
As décadas seguintes trouxeram avanços na compreensão do fenômeno. Em 1873, o engenheiro inglês Willoughby Smith descobriu a fotocondutividade do selênio, observando que a resistência elétrica desse elemento diminuía quando exposto à luz. Em 1876, William Grylls Adams e Richard Evans Day demonstraram que a luz poderia gerar corrente elétrica em selênio sem a necessidade de calor ou reações químicas.
A primeira célula solar de selênio foi construída em 1883 por Charles Fritts, atingindo eficiência de aproximadamente 1%. Embora impraticável para geração de energia, essa invenção demonstrou a viabilidade do conceito e abriu caminho para desenvolvimentos futuros.
A Era do Silício e a Revolução dos Laboratórios Bell
O marco definitivo da tecnologia fotovoltaica moderna ocorreu em 1954 nos Bell Laboratories, nos Estados Unidos. Os pesquisadores Daryl Chapin, Calvin Fuller e Gerald Pearson desenvolveram a primeira célula solar prática de silício cristalino, alcançando eficiência de aproximadamente 6% - suficiente para alimentar pequenos equipamentos eletrônicos.
Essa invenção chegou em momento oportuno: a corrida espacial entre Estados Unidos e União Soviética criou demanda por fontes de energia confiáveis para satélites. Em 1958, o satélite americano Vanguard I tornou-se o primeiro veículo espacial alimentado por células solares, demonstrando a durabilidade e confiabilidade da tecnologia em ambiente extremo.
Durante as décadas de 1960 e 1970, a indústria espacial permaneceu como principal mercado para células fotovoltaicas. Os altos custos de produção - centenas de dólares por watt - restringiam aplicações terrestres a nichos como faróis, boias de navegação e telecomunicações remotas.
Crises do Petróleo e Interesse Renovado
As crises do petróleo de 1973 e 1979 catalisaram renovado interesse em fontes alternativas de energia. Governos de países desenvolvidos, especialmente Estados Unidos, Japão e Alemanha, iniciaram programas de pesquisa e desenvolvimento para reduzir custos e aumentar a eficiência das células solares.
Esse período viu o surgimento de novas tecnologias de produção e materiais alternativos. Células de filmes finos, incluindo silício amorfo e compostos como CdTe e CIGS, foram desenvolvidas como alternativas potencialmente mais baratas ao silício cristalino convencional.
No entanto, a estabilização dos preços do petróleo nos anos 1980 reduziu a urgência percebida da transição energética. Investimentos em pesquisa solar diminuíram em muitos países, embora programas em Japão e Alemanha tenham mantido continuidade.
O Renascimento Alemão e Japonês
A Alemanha liderou o renascimento da energia solar fotovoltaica nos anos 1990 e 2000 através de políticas públicas inovadoras. A lei de tarifas feed-in (EEG) de 2000 garantiu remuneração atrativa para produtores de energia renovável, criando mercado doméstico robusto que estimulou investimentos em manufatura e reduções de custo.
O Japão manteve programa consistente de incentivo residencial e desenvolveu fabricantes de equipamentos fotovoltaicos que se tornaram líderes globais. A combinação de tecnologia avançada, incentivos governamentais e consciência ambiental da população criou mercado maduro e sofisticado.
Esses mercados pioneiros demonstraram que políticas públicas bem desenhadas poderiam acelerar a adoção de energia solar, gerando escala de produção que reduzia custos para o mundo todo. A curva de aprendizado da indústria fotovoltaica começou sua trajetória descendente que transformaria o setor.
A Ascensão da China e a Queda dos Custos
A partir de meados dos anos 2000, a China emergiu como potência dominante na manufatura fotovoltaica. Investimentos massivos em capacidade produtiva, combinados com menores custos de mão de obra e energia, permitiram que fabricantes chineses oferecessem módulos a preços progressivamente menores.
O preço dos módulos fotovoltaicos caiu de aproximadamente US$ 5/W em 2008 para menos de US$ 0,30/W em 2023 - redução superior a 90%. Essa queda dramática transformou a energia solar de tecnologia cara subsidiada em fonte competitiva com combustíveis fósseis em praticamente todos os mercados mundiais.
A China também se tornou o maior mercado consumidor de energia solar, instalando dezenas de gigawatts anualmente em usinas de grande porte e sistemas distribuídos. Políticas de descarbonização e metas ambiciosas de capacidade renovável impulsionam demanda contínua.
O Despertar do Brasil
O mercado brasileiro de energia solar permaneceu incipiente até 2012, quando a Resolução Normativa ANEEL nº 482 estabeleceu o marco regulatório para geração distribuída. Até então, instalações fotovoltaicas se limitavam a sistemas isolados em áreas remotas não atendidas pela rede elétrica.
A partir de 2015, com aperfeiçoamentos regulatórios e queda global dos custos de equipamentos, o mercado brasileiro iniciou trajetória de crescimento acelerado. O número de sistemas conectados multiplicou-se exponencialmente ano após ano, posicionando o Brasil entre os maiores mercados fotovoltaicos mundiais.
Leilões de energia de grande porte contrataram gigawatts de capacidade solar centralizada, enquanto a geração distribuída floresceu em residências, comércios e indústrias. O setor criou centenas de milhares de empregos e estabeleceu cadeia produtiva diversificada.
Atualmente, empresas especializadas como a CSolar atendem diferentes regiões do país, incluindo mercados importantes como a região de Sorocaba e outras cidades do interior paulista e brasileiro.
Marcos Globais Recentes
O Acordo de Paris de 2015 estabeleceu metas globais de descarbonização que aceleraram investimentos em energia renovável. Países desenvolvidos e em desenvolvimento comprometeram-se com trajetórias de redução de emissões que dependem fortemente da expansão solar e eólica.
A pandemia de COVID-19 em 2020, apesar de causar disrupções temporárias nas cadeias de suprimentos, não freou o crescimento do setor solar. Programas de recuperação econômica em diversos países priorizaram investimentos verdes, reforçando a transição energética.
Em 2023, a energia solar tornou-se a fonte de geração elétrica com maior expansão anual de capacidade, superando todas as demais fontes convencionais e renováveis combinadas. Projeções indicam que essa tendência se intensificará nas próximas décadas.
Lições Históricas e Perspectivas
A trajetória da energia solar ilustra como inovações tecnológicas, políticas públicas e forças de mercado podem convergir para transformar setores inteiros. Os programas alemão e japonês demonstraram que incentivos bem desenhados criam mercados que, por sua vez, geram escala e reduções de custo.
A experiência também mostra a importância da persistência. Décadas separaram as primeiras células práticas de silício (1954) da competitividade econômica com fontes convencionais (anos 2010). Investimentos contínuos em P&D, mesmo durante períodos de baixo interesse comercial, foram essenciais para os avanços que hoje beneficiam a humanidade.
O futuro aponta para integração crescente de solar com armazenamento de energia e outras tecnologias limpas, formando sistemas energéticos cada vez mais descentralizados, resilientes e sustentáveis.
Conclusão
De curiosidade científica do século XIX a pilar da transição energética do século XXI, a energia solar percorreu longa jornada de amadurecimento tecnológico e comercial. Os desafios que ainda permanecem - intermitência, armazenamento, integração de rede - são menores que os já superados, e o momento histórico favorece sua resolução.
Para o Brasil, país abençoado por abundante recurso solar, a história do setor oferece tanto inspiração quanto alerta: as condições naturais são necessárias mas não suficientes para o desenvolvimento da energia solar. Políticas públicas consistentes, investimentos em infraestrutura e formação de capital humano são igualmente essenciais para capturar plenamente o potencial solar brasileiro.